chronos
aos poucos me transformo nas minhas avós
Quando pré-adolescente, eu achava a linha Chronos, da Natura, a coisa mais chique do universo. Pensava que quando fosse adulta, iria usar esses produtos. Minha mãe utilizava os hidratantes para o rosto e a Natura era uma marca onipresente em minha casa. Lembro-me de um kit de demonstração com vários minis batons, perfumes espalhados pelos banheiros, o cheiro das linhas Mamãe e Bebê e Erva Doce. São notas olfativas que me remetem à infância. O Essencial talvez tenha sido o primeiro “perfume de adulto” que eu tive, por volta dos treze anos.
Essa onipresença em um momento em que não se conhecia o léxico do skincare e a indústria do wellness era praticamente inexistente para estratos das camadas médias e baixas da população (ao menos como conhecemos hoje) só foi possível por causa da minha avó Leia. Minha avó é alguém cuja história admiro muito, ousou desquitar-se com três filhos quando o divórcio não era uma possibilidade, mudou-se de cidade e fez carreira como professora na escola onde conheceu o homem a quem eu chamo de avô, que se casou com uma mulher desquitada e mãe solo de três filhos a despeito das objeções da própria família.
Sendo uma professora e mãe solo, ela tinha que complementar a renda e, por isso, trabalhou como vendedora no esquema de porta-em-porta. Vendeu de tudo, mesmo depois de novamente casada e aposentada. O que mais me recordo são as vendas de joias - e lembro de ir com ela na Rua do Ouro em São Paulo e no ourives com quem ela trabalhava em Suzano - e, principalmente, as vendas da Natura.
Minha avó é uma das tantas mulheres nesse Brasil que complementou renda sendo revendedora de cosméticos. E a bixa era boa, com ela era tudo pronta entrega, raras as vezes que havia a encomenda através da revistinha. Ela se arriscava e vendia tudo. Quando ela ia para Mogi eu me lembro dos cafés em casa com a presença das amigas e das primas da minha mãe (que, de agora em diante, serão tratadas apenas como tias, como é de convir aqui no Brasil), as caixas de produtos Natura e as joias espalhadas pela sala. Escrevendo também me lembro agora das roupas, inclusive ia com a minha avó até o SP Market, uma viagem nada desprezível saindo da zona leste da grande São Paulo. A minha casa, assim, se tornava uma filial da feira do rolo, ou uma versão pobre premium da Daslu, com dezenas de mulheres conversando alto, uma por cima da outra enquanto tomavam café em uma barulheira indistinguível, um idioma compreensível apenas para os iniciados.
Quase todas com mais ou menos a idade que tenho hoje - porém, ao puxar as imagens da minha memória, minha mãe e minhas tias parecem muito mais velhas e mais maduras do que eu e minhas amigas, talvez pelo fato de quase todas já terem tido dois ou três filhos e uma casa própria aos 35 anos [cries in Millenial].
Por alguma razão, a Natura nunca entrou muito no hype do skincare, ao menos não na minha faixa etária e no meu perfil algorítmico. Minha dermatologista nunca me receitou. Parece que consultoras não existem, não fazem parte do imaginário das pessoas com quem eu convivo. Foi apenas entrando em uma loja da marca no meu bairro vinte e cinco anos depois eu virei uma mulher adulta que consome a marca, como a minha mãe e minhas avós já foram um dia. Ainda que seja bem menos extravagante, eu herdei, entre outras coisas, certa predisposição à vaidade da minha vó Leia. Eu ter comprado a marca que ela revendia foi menos uma questão de foco na qualidade e mais pela memória afetiva, caso contrário não teria gastado absurdos 29 reais em um potinho de álcool em gel da linha mamãe e bebê.
Já faz um tempo que percebo que estou me transformando em minhas ancestrais.
Há uns meses postei nos meus stories uma imagem em que eu fazia uma careta muito parecida com a que a minha avó materna, a vó Ceci, fazia. Como se não pudéssemos cair mesmo longe da árvore. No domingo passado, minha prima me disse que me acha mais parecida com a minha avó do que com a minha mãe. Quando o aplicativo FaceApp estourou e você era capaz de criar uma versão mais velha, mais nova ou do gênero oposto de si mesma, ao me ver na versão idosa eu me assustei: tal qual a minha avó. Não ajuda termos todas as mulheres da família o mesmo nariz e a mesma forma. O Caio até hoje não sabe muito bem distinguir quem é quem entre as primas da minha mãe; quando estamos juntas, somos todas iguais. Ainda que meu maxilar seja muito mais parecido com o da minha tia e das minhas primas paternas, o conjunto todo vai ficando mais próximo dos Rissoni à medida em que eu envelheço.
Ando fissurada em palavras cruzadas, como vó Ceci era com criptogramas. Assim como a casa dos meus avós, a minha tem revistas Coquetel espalhadas entre o quarto e a sala. Eu resolvi dedicar meu tempo a esse hobby analógico e vou assim me tornando essa pessoa de meia-idade meio esquisita, que cultiva esse tipo de prática ao mesmo tempo em que manda shitpost para os amigos e conversa com os alunos através de memes, por ser uma pessoa cronicamente online.
Como alguém que trabalha com a memória histórica em um sentido mais amplo e político, gosto de pensar que essas pequenas idiossincrasias acabam por manter vivas as memórias de minha família e as tradições, os defeitos e as virtudes (porque até nisso me pareço com elas, assim como pareço com minha mãe), que as levam a um ponto mais distante da história. Gosto disso especialmente porque há oito anos minha avó Ceci se foi, mas continua aqui nas minhas caretas. E, quando visitei a minha avó Leia, ela não se lembrava exatamente de mim, mas, ao olhar para minha aliança seu faro de vendedora de joias falou mais alto, elogiou o anel e perguntou se havia sido convidada para o casamento. Quero imaginar que essas miudezas em algum lugar dela acendem um lampejo, uma fagulha de lembrança.




Parece que gostar de escrever também é herança de família kkkk
Você nunca para de me surpreender. Fiquei muito emocionado. Orgulho de você!