cidade fantasma
passando o carnaval em são paulo
Estava me sentindo muito feliz na terça-feira de carnaval, depois de curtir mais um ano de Cerca Frango (um ritual que entrou em minha vida junto com a minha musa carnavalesca Anna Carolina). Ainda que não tenha sido um dos melhores anos do bloco, na minha opinião, curti com amigos e irmã, fomos esmagados, saímos ensopados de suor e altos graças às bebidas enlatadas sabor rum e melancia, xeque mate e cerveja. O puro suco do excesso, da alegria, a despeito de viver em uma cidade cujo prefeito cerceia cada vez mais a felicidade alheia, como se viver em São Paulo fosse apenas esperar para morrer na contramão, atrapalhando o tráfego.
A verdade é que saí energizada, feliz, contente, pronta para o ano a seguir e, ao chegar em casa, me deparo com este bluíte da tradutora e escritora Stephanie Borges. Talvez a minha felicidade dependa de vários fatores, científicos e pseudocientíficos: aumentei a dose do antidepressivo na semana passada, meu aniversário caiu na sexta-feira início de carnaval, de modo que o carnaval foi o pontapé da minha revolução solar astrológica. Sendo essa pessoa materialista mística, acredito tanto na primeira quanto nas demais hipóteses: era a energia das entidades de carnaval me levando para frente, eu começando meu ano solar com o pé direito e a química do meu cérebro funcionando da maneira correta.
Nestes tempos, entendo cada vez mais o carnaval como essa pulsão de vida contra a pulsão de morte do fascismo. Eu já falei um pouco sobre essa questão em uma outra edição da newsletter, mas especialmente morando em São Paulo, esse lugar que amam odiar (São Paulo não tem isso etc), acho o carnaval paulistano ainda mais digno de nota, porque a estética fascista é algo quase preponderante na cidade e no Estado.
O que ressoa "lá fora” (quero dizer, nas redes sociais dos não paulistas) é o bloco flopado na Faria Lima que transforma a calçada em camarote privado, com gente tosca pulando carnaval ao som de David Guetta ou qualquer EDM genérico. É a privatização do espaço público que o Ricardo Nunes insiste em concretizar, com Calvin Harris na Consolação; a São Paulo sem árvores como ele visualiza a Sena Madureira, com condomínios que são os mais finos exemplares da “arquitetura escrota brazileira” (sic).
Mas aí você vê os meninos da juventude da Vai-Vai abrindo uma peça no Teatro Oficina, o Ilú Obá de Min, os pequenos grandes blocos nas ruelas do Bixiga e da Vila Anglo, a catarse que é o Pasmado (para mim o melhor bloco de São Paulo), os moradores de rua do centro também se transformando em foliões no Tarado ni Você, Charanga do França e Minhoqueens, apesar de toda tentativa de higienização e aporofobia.
É claro que o carnaval de rua de São Paulo não é e nem nunca será igual ao carnaval do Rio, de Salvador, BH ou Recife - os blocos são pequenas ilhas de cor e insanidade na amargura cinzenta da cidade, mas saindo deles parece que o carnaval simplesmente deixa de existir, com a ajuda da prefeitura que antes do fim previsto dos cortejos dispersa foliões com automóveis e gás de pimenta da guarda municipal, como se a reabertura da via para o trânsito fosse mais importante que a ocupação das ruas.
Por isso, no fim, achei que teve a sua graça e importância passar o carnaval em São Paulo, não porque o nosso carnaval de rua é melhor que dos outros, mas justamente porque não é, está longe de ser e temos toda uma cultura governamental jogando contra a ocupação dos espaços públicos sem fins lucrativos, de modo que foliar em São Paulo acaba sendo um tipo de resistência à essas pessoas cuja única São Paulo que vale a pena cuidar e preservar é a São Paulo que mais vende Montblancs e Ferraris no Sul Global.
O carnaval é vida, desbunde e nascimento, da vida que pulsa, que não pede licença, que goza da felicidade, ainda seguido do puerpério da quaresma e das opressões da vida mundana, é a ideia do outro mundo possível, do mundo invertido em quatro dias. Cada vez mais acredito no poder de desorganização do carnaval como alternativa ao fascismo.
Outras coisas
A estética fascista é pobre e sem graça, sabemos. Quando a Acadêmicos de Niteroi trouxe a genial ala “Família em Conserva”, o desenho da família tradicional brasileira parecia feito com IA.
O desenho não me parece feito com IA generativa, mas sim a sua crítica. O mais engraçado é o grande SENTIU dos conservadores brasileiros que passaram a reproduzir latas de conserva com imagens de suas famílias feitas em… IA
É o fim de toda a sutileza mesmo. Eles vestem a carapuça da fubanguice. Eu ri demais.
E um viva à minha Gaviões da Fiel que terminou em segundo lugar com seu belíssimo desfile em SP - perdeu por um décimo da Mocidade Alegre, que teve o título merecido. E à minha Vila Isabel que ficou em 3o lugar no Rio. As duas com Sabrina Sato - coincidência? Acho que não.








Me emocionei.