espaços liminares
encontros em noites escuras
Havia uma mácula em minha formação cinematográfica, devidamente sanada ontem à noite. Finalmente assisti Encontros e Desencontros de Sofia Coppola, de quem já havia assistido Virgens Suicidas, Maria Antonieta e outros, menos aquele que era considerado sua obra-prima.
Não sei porque demorei tantos anos para assisti-lo, sendo que a temática muito me interessa. Dois perdidos em uma noite escura talvez seja meu subgênero favorito do cinema, porque ele dialoga profundamente com meu outro subgênero favorito: ruminações sobre o que poderia ter sido e não foi.
Existe algo de mágico no encontro de duas almas solitárias à noite, quando todos os gatos tornam-se pardos. Eu sou uma pessoa muito pouco notívaga, bem diurna até, mas a madrugada me encanta. A madrugada é o que me faz uma pessoa de “cidade grande”, eu gosto das grandes cidades à noite, dos letreiros neon, do excesso de luzes, do silêncio não silencioso, do momento em que todos baixam as guardas e se tornam mais vulneráveis e mais dispostos, porque o manto da noite nos protege. A noite é um mundo à parte que acho deveras interessante, ainda que no presente pareça um momento recheado de perigos e pouco convidativo.
Algumas das minhas melhores memórias foram caminhando à esmo de madrugada - como sou uma pessoa pouco boêmia, consigo lembrá-las com maestria. Andar por Zurique na Züri Fäscht de 2007. Caminhar pelas ruas de Buenos Aires madrugada adentro em 2023. Olhar o por-do-sol eterno no horizonte em um navio no mar do Mar Báltico em 2004. Mas, principalmente, todas as memórias do final da minha adolescência e do início da minha idade adulta em São Paulo. A primeira vez que eu fiquei com o Caio foi madrugada adentro, em uma noite que começou no Charme da Paulista, caminhou até o Charme da Augusta (nosso primeiro beijo), se encaminhou para a Sarajevo e terminou, como de praxe nesse local, com um café da manhã na Bella Paulista em 2014. Não fôssemos dois perdidos em uma noite escura, talvez não tivéssemos nos casado.
Existe a melancolia da noite, também; a noite é quando você conhece alguém que só foi possível conhecer naquela dobra do espaço-tempo, em uma ação que não é nem nunca será possível de se repetir; aqueles encontros que ficam na memória, impossíveis de serem replicados. É o caso de Bob e Charlotte em Encontros e Desencontros, Jesse e Celine em Antes do Amanhecer e até em comédias teen como Nick e Nora: Uma noite de amor e música (um filme delicioso btw).
Existe algo de poético nesses encontros pela sua não replicabilidade. Jesse e Celine sozinhos no mesmo trem. Bob e Charlotte lidando com a solidão em um hotel cinco estrelas em um país em que não falam o mesmo idioma, muito menos compreendem as letras do alfabeto. Espaços liminares onde todas as regras parecem suspensas por algumas horas ou dias, em que eles se tornam extremamente honestos sobre si mesmos com um desconhecido, abertos quanto a seus medos e solidões.
Algumas histórias não devem ser concluídas, não devem ter começo, meio e fim. Devem existir apenas nos espaços liminares de nossas memórias.
Aqui penso nos filmes que se encaixam na segunda categoria, ruminações sobre o que poderia ter sido e não foi, cujo principal expoente é Antes do Pôr do Sol, mas que recentemente ganhou um representante de peso que foi Vidas Passadas, de Celine Song. Nem preciso dizer que esse filme me deu um nó tático na cabeça. Olha Brito, sinceramente…só quem viveu sabe.
Eu acho interessantíssimo que há uma certa mudança na ótica do filme. O saudosismo é mais do Hae-sung; o reencontro mexe com Nora, mas no sentido de que ela sabe que nunca poderia ser a pessoa que ele pensa que ela é. Muita coisa mudou, e os dois passam muito do filme lost in translation (pun intended). O que quer que houve entre eles, e o sentimento ainda existente, só pode existir em um espaço liminar, em uma memória, em um experimento fictício, sem espaço na realidade material.
De todos esses filmes, há um muito, mas muito pouco falado, que me marcou demais quando o vi. Talvez seja o “pior” entre todos, mas eu tenho um apego emocional por ele; quando assisti, em 2011, era apenas uma jovem camponesa e toda a discussão mexeu muito comigo. Last Night, filme de Messy Tadjedin, conta a história de um casal, Michael e Joanna em uma noite em que eles passam separados - nessa noite, Michael viaja a trabalho com uma colega gata que está a fim dele e vice-versa; enquanto Joanna reencontra por coincidência Alex, o the one that got away dela. É muito difícil não torcer pelo Alex, afinal, ele é interpretado pelo charmosíssimo Guillaume Canet.
De qualquer modo, existe uma cena em específico, quando Alex está conversando com um amigo sobre Joanna, e o fato dessa relação nunca ter saído desse espaço liminar, o amigo diz
Ele ainda manda o Alex ser esperto. Mantenha como está, é a única forma de manter essa coisa toda viva. Porque quando a realidade bate, tudo vira uma outra coisa. Quando Celine canta para Jesse “Baby you're going to miss that plane”, no que ele responde “I know”, tudo iria mudar a partir dali
Vemos, então, a realidade bater na porta em Antes da Meia Noite. No último filme da trilogia, Jesse e Celine estão juntos, na meia-idade, são pais, e a realidade parece esmagar toda aquela aura mágica da madrugada em Viena e da tarde em Paris. Aquelas pessoas eram versões inventadas, projetadas, lidar com a realidade e amar as pessoas em sua totalidade é muito mais difícil. Como diz Clementine Kruzcynski em Brilho eterno de uma mente sem lembranças, muito fácil se apaixonar pelo conceito que fazemos das pessoas, difícil é continuarmos apaixonados pelo que elas são de fato.
É fácil demais criar uma manic pixie dream girl. Difícil é dar complexidade - quando elas se tornam complexas, Clementine em Brilho Eterno, Celine em Antes da Meia Noite, ou até mesmo Summer em 500 dias com ela elas se tornam chatas ou vilãs na visão do homem que não tinha condições de tanká-las pelo que elas realmente eram, gente. Como já disse Guillermo del Toro ao comentar sobre qual era sua trilogia favorita, no que ele respondeu ser a trilogia Antes, “é muito mais difícil viver do que morrer por alguém”.











Linda análise. Me faz pensar sobre o tempo. O que é o tempo? Onde e quando ele existe? Ele flui?
Belo texto...