Industry
A novela da HBO e visões sobre raça, classe e coletinho da XP
Tenho uma fascinação quase antropológica pelo mundo das elites - inclusive, elas são, ainda que tangencialmente, meu objeto de estudo. No campo do entretenimento televisivo, eu adoro programas que tratam de ricos fazendo riquice . De ícones da cultura pop, como Gossip Girl, passando por programas farofa, como Dinastia, às novelas com o verniz HBO de qualidade, como Succession.
[Percebam vocês que esta newsletter terá análise sociológica freestyle]
Recentemente, comecei a assistir Industry, uma série transmitida aqui no Brasil pela HBO, mas que é feita em parceria com a BBC. O texto não está a altura de Succession, mas tem qualidade e traz umas tensões e dinâmicas interessantes que só são possíveis, a meu ver, por conta do local onde a série se passa: Londres.
Industry começa como uma série que segue os passos de cinco jovens trainees recém-formados na filial londrina de um banco de investimentos fictício chamado Pierpoint & Co. Ela é cheia dos jargões financeiros e não se fia muito em ser didática explicando cada sigla e o que faz cada departamento (mas basicamente ela vai se concentrando no pessoal de Trading/Vendas, o “chão de fábrica”, a divisão de Investment Banking e de pesquisa e, mais tarde, de gestão de patrimônio de pessoas físicas, o Private Wealth Management). E, ainda que essas pessoas ganhem quantidades obscenas de dinheiro e trabalhem com valores inimagináveis, estamos falando de funcionários, pessoas que trabalham para que a fortuna de famílias como a Roy e de empresas como a Waystar Royco continue se multiplicando para que as Shivs, os Kendalls e os Romans da vida possam ficar brincando de disputa sucessória.
Por trás do jargão, da loucura do comprar na baixa/vender na alta do andar de trading, algo que vai se desenvolvendo de forma muito mais sutil dentro da trama, mas que ganha um destaque enorme, são as tensões de classe e como o sistema de castas britânico acaba atuando em um espaço de trabalho como esse - e faz sentido, a trama nunca poderia se passar no escritório de Nova York - muito menos em uma suposta filial fictícia do Pierpoint & Co no Brasil provavelmente instalada ali entre a Faria Lima e a Juscelino Kubitschek - por conta das intrincadas relações entre classe, raça e colonialidade que só conseguem existir dentro do Reino Unido.
A partir de agora teremos alguns spoilers, mas nada que prejudique a trama; spoilers sociológicos, digamos assim.
Como dito anteriormente, o primeiro episódio acompanha cinco trainees: Robert, Augustus, Yasmin, Harper e Hari. Yasmin e Augustus (Gus) vem de famílias de elite; Robert, Harper e Hari vem de famílias de classe média/trabalhadora. Hari e Robert são britânicos - um é filho de imigrantes, o outro é um branco pobre. Harper é uma garota negra norte-americana que estudou em uma universidade considerada de segunda linha.
Gus é filho de um político e embaixador ganês, Yasmin é de uma família libanesa, herdeira de um império na área editorial - ambos frequentaram o colégio e a universidade no Reino Unido.
O estopim do primeiro episódio e a tônica da primeira temporada se dá com a morte de Hari, um dos trainees, por estafa - em um momento onde as siglas da moda no mundo corporativo são DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) e ESG (Ambiental, Social e Governança) - sim, a morte dele é um problema: é justamente o trainee pobre, de família hindu, o primeiro a chegar “tão longe” entre seus pares. E a sua morte cria o estopim de discussão sobre a cultura trabalhista nesses espaços.
Na sociedade de castas britânica o sotaque é um fortíssimo marcador de classe, independente da sua formação ou melhoria de condição financeira da sua família. Estamos falando do país da received pronunciation, que é subdividida da sua variante classe média/alta e aristocrática, e os diferentes sotaques regionais e que marcam também as regiões de classe trabalhadora. Ainda existe, no Reino Unido, um teto onde as pessoas conseguem chegar (ainda que velado) que depende de você ter estudado em Oxbridge (Oxford e Cambridge) ou nas demais 22 universidades do chamado Russell Group, com destaque para as universidades do ecossistema da Universidade de Londres.
Por que eu falo disso?
Gus e Robert, os amigos que se conheceram em Oxford
Logo no início a gente descobre que Robert e Gus são amigos, roomates, e se conheceram em Oxford - Gus se graduou em Literae Humaniores, o nome para o bacharelado em Clássicos (Latim e Grego), um dos mais concorridos da instituição, o bacharelado que você escolhe se tem pretensões políticas. Boris Johnson é um alumni do curso de clássicos de Oxford e, assim como o Gus, é um etonian - ponto muito importante. Gus estudou em Eton, a tradicionalíssima escola para garotos, por onde passaram os príncipes Harry e William. Ele se porta como um etonian, como alguém que foi para Oxford, que usa a RP de maneira corretíssima, que sabe que o mundo está a seus pés.
Já Robert veio de uma cidade no norte da Inglaterra e caiu quase que de paraquedas em Oxford por ter passado em geografia, segundo ele o curso com menor candidato/vaga - por isso teria sido aprovado. Logo na entrevista, ele menciona Oxford como se não tivesse tido o direito de estar lá, que a sua aprovação e seu bacharelado tivessem sido quase que acidentes de percurso (e, assim, sua convocação para a entrevista). Totalmente diferente de Gus, que logo na entrevista age como se fosse dono do local - afinal, a pretensão dele é carreira política no partido conservador. Thatcher é a sua religião e Jesus apenas um carpinteiro.
Enquanto Gus pode bater de frente com seus chefes, Robert sofre bullying: pelo seu sotaque, pela sua vestimenta, quando usa uma camisa com bolsos e o seu chefe pergunta se ele é o zelador do prédio, pela sua experiência de vida. Seu chefe conta várias histórias, sempre com uma RP mais lenta, pausada - o que é prontamente percebido por Gus, que acha que o chefe do amigo é um cara cheio de caô. Em um momento de aproximação e vulnerabilidade, o chefe de Robert deixa escapar seu sotaque original de trabalhador escocês, e conta a sua escolha deliberada de modular o sotaque, de se vestir como um membro da aristocracia britânica: chega um momento em que eles param de perguntar de onde você é, mas nunca deixarão de pensar nisso. Para o chefe de Robert, um dinossauro, uma relíquia de outra geração, a única forma de ascensão é a completa assimilação.
Já o Gus é outra cepa. Ele é um homem negro e gay, porém membro de uma elite global - herdeiro das elites coloniais locais que ascenderam durante ou logo após a queda do Império Britânico - Gana se torna independente em 1957. Ele é um tory, thatcherista. Quando Hari morre, a empresa tenta utilizá-lo como token - afinal, Hari era um filho de imigrante não branco, como Gus também o é, mas há uma légua de distância entre os dois. Gus já está dentro, ele não precisa daquilo para mudar de vida. Ele já está onde Hari, Robert e Harper querem chegar. Ele pode desafiar a chefia e se recusar ser posto nesse lugar de símbolo da diversidade, e a diferença de tratamento entre Gus e Robert, não obstante ambos serem cria de Oxford mostra algo interessante dentro desse sistema britânico: em alguns casos, o preconceito de classe é mais intenso que o preconceito racial.
Em 2020, quando houve a flexibilização das regras da pandemia e viagens dentro da Inglaterra foram permitidas, eu fui conhecer Eton e Windsor - onde ficam o colégio e o castelo favorito da falecida rainha Elizabeth. A distância entre as duas cidades é uma ponte minúscula. Como era final de semana, era o dia em que os jovens etonians saíam para passear, tomar sorvete e jogar bola. Andando por Eton reparei na diversidade dos garotos por ali - com certeza, há muito mais alunos negros em Eton do que se juntar todos os colégios de elite (de elite mesmo) de São Paulo. Faz sentido, pensando que a Inglaterra, ao longo de séculos, foi o centro do Império que nunca dorme, e que as elites dos seus antigos domínios coloniais - e de países emergentes como Rússia e China - ainda enviam seus filhos para estudarem lá.
Nesse sentido, Londres é um hub de uma elite internacional e globalizada. Essa elite anda entre os seus e se protege - e é uma elite diversa em termos de origem e etnia, algo impensável de se acontecer no Brasil, em que raça e classe andam juntos como reflexo de uma sociedade escravocrata (e também pelo fato de sermos periféricos. o brasil gostaria de ser cosmopolita, mas não é)
O que me leva a questão do segundo ponto, que me parece interessante de analisar pensando na relação entre Yasmin e Harper
Yasmin, Harper e a falsa ideia de meritocracia
Nas primeiras cenas do programa vemos os gerentes e diretores entrevistando os trainees e ressaltando a ideia de que o banco é o lugar meritocrático por natureza - afinal, você é recompensado única e exclusivamente pela sua performance. Essa narrativa casa muito com a história de que era possível fazer carreira nesses bancos ali nos anos 1980 sem necessariamente ter ensino superior, muito parecido com a narrativa da fundação do 3G Capital aqui no Brasil. A história é que Lehmann estaria buscando jovens “pobres, espertos e com vontade de enriquecer” - nessa, ele conheceu Marcel Telles e o resto é história.
A série mostra bem a hipocrisia - no caso, o Pierpoint tem como alvo graduandos de universidades de ponta e faz uma série de eventos nessas universidades em feiras de emprego e outras palestras.
Harper é essa jovem “pobre, esperta e com vontade de enriquecer”. Não vou falar sobre o que a leva ir para o Reino Unido fazer carreira lá, mas é uma fuga e uma busca. Ela teria estudado na Binghamton University, uma universidade do estado de Nova York com um prestígio aquém de uma Ivy League da costa leste. Entretanto, ela chama a atenção de Eric Tao, um diretor executivo, chefe da área de trading e vendas, como ela também um norte-americano, de origem imigrante, pais chineses, o primeiro a ir para a universidade, a epítome do american dream. Ele enxerga em Harper as suas qualidades quando jovem, e ela está disposta a sacrificar tudo e todos para seguir em frente - total cultura da performance.
Porém, fica claro que se não fosse a coincidência dela ser entrevistada por Tao, ela nunca teria chegado ali; especialmente em comparação com a sua frenemy, colega de quarto e rival Yasmin.
Yasmin é, assim como Gus, membro dessa elite global. Mais do que Gus, ela é uma jet setter, uma socialite. Sua família é dona de um império editorial, ela estudou em escolas internacionais de renome, na série ela fala fluentemente cinco idiomas. Ela sabe transitar pelos corredores, enquanto Harper é mais “bruta”, digamos assim. Fica muito claro que Harper é mil vezes mais competente que Yasmin, mas falta nela as soft skills que sobram na herdeira libanesa.
Uma questão recorrente na série é o apartamento de Yasmin, onde ela começa morando sozinha com o namorado. Um enorme porão de uma townhouse de Notting Hill. Essas casas foram transformadas em apartamentos, e no caso ela mora em um apartamento de dois quartos enorme e muito bem decorado. Que trainee tem condições de morar em Notting Hill, certo? Bom, quando a townhouse é da sua família, está tudo certo.
E, em um mundo onde você precisa captar e manter clientes que já começam em um ticket altíssimo, todos os amigos de Yasmin fazem parte dessa turminha que anda de iate em Saint Tropez e são donos/administradores de fundos hedge. Assim, ela vai criando as pontes e segurando sua permanência no banco, porque ela foi ensinada a se portar de uma determinada maneira e, no desespero, é a pessoa que consegue falar direto no zap com o dono de um fundo perguntando em francês: “como foram as férias”?
Inclusive, na segunda temporada ela tenta fazer uma transição para a área de gestão de patrimônio e sabe que essa transição só seria bem sucedida pelo fato dela prometer levar para dentro do banco o dinheiro do papai. O que permite que ela seja bem sucedida não é sua competência, é seu capital social, cultural, educacional e financeiro. À Harper sobra ser implacável, cut-throat, mostrar que ela é excepcional, trabalhando o dobro que a moça branca bem nascida (ao mesmo tempo em que há a cisão de raça e classe, as duas sofrem doses cavalares de misoginia e assédio, pois são ambas mulheres em um mundo hipermasculino)
Também na segunda temporada há uma cena interessante, quando Harper, Yasmin e uma chefe desta última vão a Berlim a trabalho. Por algum motivo, ao invés de ficarem no hotel de sempre pago pelo banco, Yasmin as convida a ficarem no pied a terre de sua família em Berlim, que resulta em ser um apartamento enorme de pé direito duplo cheio de obras de arte.
Ao andar pelo prédio, a chefe de Yasmin, uma mulher irlandesa provavelmente de origem de classe média, diz algo do tipo: “posso ganhar todo o dinheiro do mundo, mas nunca conseguirei ser como eles”, em um paralelo interessante com o chefe de Robert na primeira temporada.





