Sobre a doutrinação
Trabalho, educação e subjetividade neoliberal
Ano passado prestei a primeira fase do CNU — meu local de prova ficava na zona sul de São Paulo, ali para os lados de Santo Amaro. Ao chegar no local com algumas horas de antecedência, aproveitei o tempo que tinha para ir ao supermercado mais próximo para comer alguma coisa. Quando vejo, encontrava-me em frente ao Banespão, um lugar que existia em minha memória mas cuja localização eu não era capaz de apontar no mapa.
Sou filha de bancários concursados aposentados - eu coloquei para mim que não seria bancária em hipótese alguma, porque ser bancário tem um preço para a saúde mental e física. Entretanto, olhando em retrospecto, sinto uma certa inveja da estabilidade do bancário. Mas, principalmente, sinto inveja senso de coletividade muito característico dos empregos e trabalhadores no século XX que simplesmente tem ruído a olhos vistos.
Benefícios que iam além de vale alimentação, vale transporte e plano de saúde excelentes: uma visão de colaboração e pertencimento que se materializava também em colônias de férias (colônia da Caixa Econômica em Campos do Jordão, turma de 1998), clubes e associações desportivas, em uma rede de apoio de e para trabalhadores.
Em 2000, acho, participamos de uma gincana no Esporte Clube Banespa, vulgo Banespão, onde vestimos literalmente a camisa da agência de Mogi das Cruzes. Lembro vagamente de uma homenagem aos Mamonas Assassinas pela galera de Guarulhos - acho que os pais de algum dos integrantes eram banespianos. Lembro-me de ralar minha bunda ao descer no tobogã de concreto e de caminhar pelo clube. Sabendo hoje que o banco já havia sido vendido para o Santander, penso que para os adultos a vibe dessa gincana era algo próximo do piquenique corporativo da Dunder Mifflin - uma tentativa de salvar algo que já estava agonizando, não sei.
Em Mogi havia o Banespinha, o clube dos funcionários de Mogi das Cruzes. O Banespinha era bem simples, mas minha família construiu ali muitas memórias: tanto meu primeiro aniversário quanto meus quinze anos foram celebrados lá. Minha mãe fazia parte do conselho do clube, que acho que era mantido de uma maneira autogerida pelos funcionários do banco. Meus pais nunca foram muito envolvidos com o sindicato dos bancários, nem são pessoas necessariamente de esquerda, ainda que me lembre do adesivo “Fora Covas e FHC” colado na janela do quarto na época das manifestações e greves contra a privatização do Banespa. O que é curioso, porque esse cuidado com um bem coletivo e afetivo como o Banespinha é algo essencialmente político. Minha mãe pode discordar de mim, mas ela o que ela fazia ali era política.
Esse exemplo manifesta um tipo de coesão social que foi se deteriorando desde a ascensão do neoliberalismo da década de 1980. Essa visão de sindicatos fortes, trabalhadores felizes e classes médias prósperas com a ajuda do Estado - o famoso Welfare State - foi fundamental para conter o avanço das ideias socialistas e comunistas nos países capitalistas centrais. A resposta era que o capitalismo poderia dar certo, traria prosperidade, liberdade e felicidade a todos. Esquecem que Isso só foi possível graças a 1) pesada intervenção estatal; 2) a luta organizada dos trabalhadores ao longo do século XX, que tensionava a luta de classes e levando à melhoria da condição de vida das classes trabalhadoras.
Em 2019 estive em Edimburgo pela primeira vez; lá fui em um museu chamado The People’s Story. Em uma ilha em que os museus e pontos de interesses históricos dizem respeito a castelos, reis e rainhas, Stuarts, Tudors e Windsors, ali estava um museu dedicado a celebrar a vida e as lutas de homens e mulheres comuns, focando na classe trabalhadora. Esse tipo de museu não é único no Reino Unido - em Manchester há o People’s Museum, um dos maiores museus dedicado a luta da classe trabalhadora no mundo. Pelo que entendi, em cidades com tradição de governos trabalhistas, houve esse esforço de criar espaços dedicados à memória de milhões de trabalhadores anônimos.
O que me chamou a atenção, entre muitas histórias, era que o movimento operário escocês no início do século XX dispunha de escolas dominicais para as crianças filhas de trabalhadores - a ideia era contrapor a doutrinação religiosa por uma visão que pregasse a consciência de classe desde pequenos. O argumento é irretocável, na minha opinião: se eles podem, nós também podemos. O mais importante: a educação era um espaço de disputa. Se na escola dominical da igreja as crianças aprendiam que eram os cordeiros obedientes de Deus, na escola dominical operária aprendiam que o cordeiro não só pode como deve se rebelar quando os lobos estão atrás dele.
Nos últimos tempos tenho pensado bastante sobre essa ideia de escola dominical socialista. No século XXI seria considerado uma heresia, uma tentativa de doutrinação. Eu me pergunto: qual o problema da doutrinação? Na verdade, o que a direita chama de doutrinação eu prefiro chamar de disputa política, uma disputa que estamos obviamente perdendo. Outro dia coloquei aquelas caixas anônimas no Instagram e recebi uma mensagem que dizia que eu me justificava demais nas redes. De fato tendo a pecar no didatismo, mas não pude deixar de pensar em como tenho introjetado em mim o medo que acomete vários educadores e que ganha cada vez mais força: a autocensura, o medo da fala mal interpretada, tirada de contexto, manipulada pela extrema-direita.
Lembro de duas histórias:
Em 2017 fui ameaçada por um aluno depois de uma aula sobre teoria feminista de Relações Internacionais. O aluno resolveu me confrontar em um momento em que estava sozinha, a caminho do estacionamento dos funcionários, às 22h. Me acusou de doutrinação — rebati que não existe doutrinação com fatos da realidade, eu havia levado números, do IBGE, da ONU; no que ele prontamente me respondeu serem instituições comunistas. Ficou insistindo para que eu me posicionasse com relação ao aborto; eu acredito que ele estava me gravando — na época estava dando aula em uma universidade confessional e já havia uma guinada conservadora por parte da diocese que tomava conta da mantenedora; duas professoras haviam sido supostamente afastadas por tratarem de direitos reprodutivos em sala de aula.
No mesmo ano, uma hoje ex-amiga, a quem eu tinha em alta conta e foi muito importante na minha vida, mas que abraçou com fervor o bolsonarismo, ao me encontrar depois de anos sem me ver, ao invés de perguntar como eu estava, ou dizer que estava com saudades, me perguntou em tom irônico se eu estava doutrinando muita gente. Ela não estava brincando, ela queria me cutucar. Eu fiquei triste, principalmente porque ali ela colocava em xeque minha capacidade profissional enquanto professora.
Hoje acho meio ridículo, penso no quanto os cérebros foram pouco a pouco carcomidos; dou aula de Relações Internacionais, talvez a mais conservadora de todas as disciplinas das ciências humanas e sociais. Uma disciplina que foi criada justamente para defender o status quo, fundada sob os espólios do imperialismo e do colonialismo. Tão conservadora que todas as viradas metodológicas e epistemológicas chegam com vinte anos de atraso e muitas vezes através de interpretações no mínimo equivocadas dos autores originais. Nunca deixei de cumprir com os componentes curriculares - dou aula sobre e acho bem interessante a visão de conservadores como Raymond Aron, por exemplo. Porém: por que não poderia trabalhar a minha opinião em sala de aula sem medo de ser taxada de doutrinadora? A reflexão crítica parte daí, a universidade deveria ser o espaço de construção coletiva do conhecimento, mais além do que mera instrumentalização para carreiras profissionais.
Novamente, a palavra coletivo é chave. Qualquer doutrinação que seja feita na universidade (se é que ela é feita) não é páreo para modificar a introjeção da ideologia e subjetividade neoliberais que nos é enfiada goela abaixo todos os dias pelos governos, pelas políticas de austeridade, pela lógica do algoritmo. A ideia do mérito e da individualidade frente ao bem comum, a impossibilidade de se fazer uma crítica sem que seja vista como “inveja” - hoje criticar a Tigrínia é ser antifeminista, veja só. O neoliberalismo foi paciente: gestado nos anos 1950, aplicado em fase de testes no Chile de Pinochet para depois ganhar o mundo com Reagan e Thatcher nos anos 1980 e se infiltrar pouco a pouco também nos partidos de esquerda a partir de 1990 - não há saída que não seja desmantelar a educação e saúde públicas, enfraquecer os sindicatos, afrouxar as regulamentações e os impostos das grandes empresas, focar no indivíduo e no consumo.
Vemos aqui hoje o precariado cair no canto da sereia de Pablos Marçais — você é um empreendedor, não um trabalhador, é uma questão de mérito e não política pública; a recusa de várias profissões de se sindicalizarem, a demonização dos sindicatos: não falo aqui apenas de entregadores e motoristas de plataformas, mas também da arrogância de devs que acreditavam ter capacidade de negociação e queriam ser PJ, trabalhar para a gringa, ganhando 30, 40 mil mensais, achando que isso ia durar para sempre e hoje se veem como as principais vítimas de demissões em massa com a adoção da IA generativa em larga escala nas empresas.
E a IA. Volto sempre a ela. Estamos tão neoliberalizados que até a esquerda, ou os progressistas, adotaram essa tecnologia de maneira acrítica, abraçando e adorando essa ideologia (no sentido marxista do termo mesmo) e ainda repetindo o clichê neoliberal de aumento da produtividade! Meu deus do céu. Aumento de produtividade sem aumento de salário e melhoria das condições materiais de vida do trabalhador é aumento da mais-valia pro patrão e dos bônus dos acionistas, puta que me pariu! “Ah, mas o mundo hoje é assim, temos que jogar o jogo” — ô, gente, pensa um pouco. Acho que prefiro ser tachada de doutrinadora do que abraçar esse conformismo neoliberal. Fora a expulsão ambiental causada pelos datacenters, pela mineração de terras-raras, drenando a água de vários locais, diminuindo o espaço vital de várias espécies, não apenas a nossa (e já falei sobre isso aqui).
Eu, particularmente, toda vez que tentei usar a IA generativa fiquei com raiva, a IA generativa é a contraparte tecnológica da performance da inutilidade do homem hétero cisgênero. Todas as vezes que a usei o resultado ficou um lixo, o tempo que perdia ajustando o prompt me levava no fim a fazer eu mesma o negócio. Pensando bem, não me surpreende, afinal, quem são os principais defensores e postulantes dos LLM? O que é o Vale do Silício senão um grande clubinho de homens inúteis?
O problema é que esses homens inúteis detêm cada vez mais poder e cada vez mais dinheiro. Eles detêm o poder do Estado, têm os meios de comunicação na palma das mãos, detêm os nossos dados e sequestram as nossas subjetividades. Eles impulsionam a sua ideologia através de suas redes sociais, eles utilizam seus algoritmos e seus modelos de linguagem para reforçar essa ideia de individualismo exacerbado, demonização do coletivo, normalização da ideia de que é ok alguém tornar-se trilionário, que o Estado deve ser mínimo, que devemos negociar com o patrão, que os inimigos são os imigrantes, que aprender não requer esforço e pode ser uma atividade puramente individual, porque os professores, essa profissão do mal, agem como Gatekeepers da verdade. O aprendizado verdadeiro está a um clique de distância nessa plataforma chamada Brasil Paralelo que paga para que o google os apresente como o primeiro conteúdo pesquisado.
Como uma reles professora universitária, que não consegue fazer com que os alunos leiam um texto de 10 páginas sem que eles o resumam no NotebookLM, é capaz de fazer “lavagem cerebral” e “doutrinar” pessoas que estão sendo bombardeadas com esse tipo de visão de mundo o tempo todo? Quando ela própria já se perdeu em sua própria subjetividade, incapaz de pensar em construir um projeto coletivo de conhecimento porque vive precarizada pois não se sabe se vai continuar empregada enquanto substituta no semestre seguinte?
Quem dera tivéssemos continuado com as escolas dominicais, os clubes de funcionários, as vilas operárias, os sindicatos fortes, enxergando a educação como uma etapa importante da formação política, da conscientização de classe, a visão de coletividade e do bem comum impostas por essas associações e esses meios de vida; da ideia de que só a luta coletiva muda o mundo. Os professores talvez fossem então menos demonizados e nossa suposta doutrinação seria mais efetiva, porque olha, estamos perdendo, e estamos perdendo de muito.







Como fui duas vezes a Edimburgo e não sabia da existência desse museu?
Gostei do texto, acho que temos que reimplantar a escola dominical. Pq, realmente, estamos perdendo de muito.
Texto perfeito!