um quarto só meu
reflexões sobre os caminhos escolhidos e Virginia Woolf

Estou lendo, neste momento, Um teto todo seu, de Virginia Woolf. É a primeira vez que leio algo da autora. Eu ando em uma fase de ler clássicos escritos por mulheres depressivas que cometeram suicídio - além de Virginia Woolf, li este ano A redoma de vidro, da Sylvia Plath. Ler mulheres que foram vistas como insanas em sua época é toda uma experiência; mais ainda quando você se identifica com aquela dita loucura (não se preocupem, estou bem longe de pensar em acabar com a minha vida, não é disso que estou falando).
Um teto todo seu não é ficcional. Ao contrário, é a transcrição de uma palestra que ela deu em 1928 no Newnham College, em Cambridge - uma das duas faculdades da universidade apenas para mulheres. Nessa palestra, que inicialmente seria sobre as mulheres na ficção, ela discorre sobre as desigualdades entre homens e mulheres no que diz respeito ao trabalho criativo. O trecho mais famoso da obra aparece logo no começo, quando ela diz que para uma mulher escrever ela precisa de “dinheiro de um quarto todo seu”. Dinheiro e espaço, as condições materiais necessárias para se pensar em criar algo.
Embora Virginia Woolf não tenha nascido pobre, e sim em uma família de intelectuais, ela precisou trabalhar boa parte da vida, ao menos na juventude, até se firmar como escritora. Ela sustentava a sua escrita com trabalhos que hoje podemos chamar de frilas, até que passou a receber uma herança de 500 libras anuais após a morte de uma tia distante. Woolf argumenta que esse dinheiro inesperado foi fundamental para que ela pudesse se sentir livre para escrever.
O mais impressionante, contudo, foi a admissão do ressentimento que ela sentia quando se deparava com aqueles que, por genialidade ou herança (90% das vezes o último), poderiam se dedicar à escrita e à arte sem interrupções. Um ressentimento que eu entendo, que assim como ela, eu luto para que não me consuma.
tampouco preciso falar da dificuldade de viver do dinheiro do próprio trabalho, pois vocês talvez tenham tentado. Mas o que ainda permanece comigo, como um tormento pior do que tudo, é o veneno do medo e da amargura que aqueles dias produziram em mim. Para começo de conversa, estar sempre realizando um trabalho que não se deseja, e feito uma escrava — adulando e bajulando, o que talvez não fosse sempre exigido, mas me parecia necessário, e, além do mais, havia muita coisa em jogo para correr riscos (Virginia Woolf, Um teto todo seu)
É muito difícil não se ressentir quando se escolhe um caminho que precisa ser pavimentado, especialmente em áreas tão difíceis quanto a academia e as artes. Muitas pessoas que parecem seguir um caminho homogêneo na academia possuem reservas e apoio financeiro; a possibilidade de utilizar a bolsa apenas para a sua pesquisa. Eu já devo ter dito aqui que cada vez mais a academia me parece uma carreira aristocrática - a despeito da falsa ilusão de democratização de acesso e de oportunidades nos primeiros governos do PT, essa falsa ilusão na qual eu caí: a ideia de que seria possível, sempre, apostar na carreira acadêmica e ter sucesso e estabilidade - seja lá o que isso queira dizer. Lembro-me até hoje de uma professora do mestrado, em 2013, dizendo que a bolsa não deveria servir para pagar as contas de casa, mas sim financiar a pesquisa. Ela havia feito toda a sua formação na França.
Naquela época a bolsa havia sido reajustada - o último reajuste em dez anos - e ela permitia uma certa qualidade de vida; era uma época de moeda valorizada, o último suspiro de otimismo do Brasil. Já dizia Petkovic:
Ainda sim, naquela época eu dividia uma casa com outras cinco garotas. Não tinha um quarto só para mim. E, ainda que tenha sido uma das melhores épocas da minha vida, fazendo coro com o título do livro, eu já pensava na qualidade de minha dissertação se eu tivesse um quarto só meu. E financiamento para pesquisa. E um ar condicionado (afinal, eu morava no Rio de Janeiro).
Quando Virginia Woolf fala da necessidade de se ter um quarto só seu, ela aponta para uma grande questão de gênero: a incapacidade de mulheres não serem interrompidas. A criação e a pesquisa de uma mulher é ainda mais excepcional quando pensamos que muitas mulheres compõem, escrevem, pesquisam nas entrelinhas da vida, no respiro entre uma tarefa doméstica e outra. Somos ensinados desde cedo a não incomodarmos o papai quando este se tranca em um cômodo para trabalhar; mas isso nunca é permitido às mulheres.
Lembro da cena do filme de A filha perdida em que a versão jovem da protagonista tenta trabalhar em casa enquanto tem duas filhas pequenas. Ela está tentando ouvir uma palestra no walkman, se não me engano, e é constantemente interrompida pelas crianças. Quem assistiu ao filme ou leu o livro sabe como a trama se desenrola - eu de forma alguma julgo a personagem.
Tudo conspira contra a possibilidade de que ela venha a fluir íntegra e completamente da mente do autor. Em geral, circunstâncias materiais conspiram contra isso. Os cachorros latem, as pessoas interrompem, é preciso ganhar dinheiro, a saúde entra em colapso. Além disso, realçando todas essas dificuldades e tornando-as mais difíceis de suportar, há a notória indiferença do mundo. Ele não pede que as pessoas escrevam poemas, romances e contos; ele não precisa disso (…) para as mulheres, pensei, olhando as prateleiras vazias, essas dificuldades eram infinitamente maiores. Em primeiro lugar, ter um quarto só seu — que dirá um quarto tranquilo ou à prova de som — estava fora de questão, a menos que seus pais fossem excepcionalmente ricos ou muito nobres, até mesmo tão recentemente quanto no início do século xix. (Virginia Woolf - Um teto todo seu)
Fiquei pensando muito nisso depois de assistir a peça O céu da língua, do Gregório Duvivier. Não me entendam mal, a peça é genial e engraçadíssima. É uma ode à língua portuguesa, à potência do nosso idioma e, ao mesmo tempo, ela é hilária. Eu saí de lá maravilhada com a capacidade de alguém poder criar aquilo, de ter aquele repertório, o tempo de pesquisa - porque sim, aquilo deve ter exigido muito tempo.
E na minha cabeça o raio problematizador, pensando sobre o privilégio que o Gregório tem: o tempo, o dinheiro e o capital cultural necessários para criar algo tão genial. Eu nunca poderia ter criado essa peça. Eu fiquei pensando se ele era constantemente interrompido pelas filhas durante a criação do roteiro, ou se ele conseguia se esconder em um quarto todo seu e trabalhar incansavelmente para entregar algo dessa qualidade para a gente.
![Magic and Moonlit Wings — [tweet by amanda] rich kids being ... Magic and Moonlit Wings — [tweet by amanda] rich kids being ...](https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!s4MY!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5c8e706f-78df-4616-8f14-894a90e9a883_625x724.jpeg)




